Raios, trovões, no meu quarto Simple Plan tocando, eu observando e analisando pôsteres recém colados na parede. Já era tarde e mamãe não passaria a noite em casa, precisava eu mesma preparar algo para o jantar. Minha mente fervia de coisas, meus ídolos estavam na cidade e eu não ia ao único concerto marcado, a barriga roncando, trovões cada vez mais altos quando a campainha tocou.
Só morávamos eu e mamãe em casa, ela não estava e eu não esperava ninguém. Quem poderia ser àquela hora? Descartei possibilidades de uma visita surpresa, ninguém nos visitava sem antes avisar. Desci as escadas com o maior cuidado para não fazer ruídos, olhei pela brecha da porta e fiquei perplexa. Do outro lado, na chuva forte, estava meu ídolo, o homem pelo qual eu faria de tudo: .
Por algum momento fiquei ali parada, sem reação alguma. Foi quando novamente a campainha tocou. Abri a porta e, por um momento, hesitei em deixá-lo entrar. Mas nem foi preciso convidá-lo, ele entrou e sentou-se no sofá. Estava muito molhado e assustado. Eu continuei parada tentando voltar à realidade. Que sonho maluco era aquele, na minha casa? Tinha algo errado acontecendo ali e eu precisava descobrir.
- ?!
- Desculpa, mas... Esse é meu nome? – Disse assustado.
Naquele momento a Terra parou. não sabia nem seu próprio nome? O que estaria acontecendo com ele? Ele tremia de frio, deixei-o sozinho na sala e fui buscar uma toalha e roupas secas. Quando voltei encontrei-o encolhido num canto, chorando. Aquilo me partiu o coração, desde o começo eu sabia que algo errado acontecia, mas só agora tive idéia do quanto errado era. Tentei acalma-lo, cobrindo-o com a toalha, ele finalmente parou de chorar e disse:
- Não sei o que houve não me lembro de nada. Sinto-me estranho. Por favor, me ajuda.
Eu não sabia o que fazer, não tinha idéia do que estava acontecendo. Abracei e comentei sobre a chuva a fim de distraí-lo, até acalmá-lo de vez. Então ele me perguntou:
- Sabe quem sou?
- Sei você é .
Tinha certeza de que se dissesse para ele que era o sonho de muitas garotas, iria o confundir mais. Então propus que subíssemos para meu quarto, liguei o computador e, juntos, fizemos uma pesquisa com seu nome. Achei que isso fosse explicar alguma coisa para ele, mas não deu muito certo. Ao ver várias fotos suas na internet sentiu uma forte tontura, a ponto de sentar-se brutalmente no chão. Eu o ajudei a levantar e deitei-o na cama. E lá ele ficou pensativo. Enquanto eu o observava, tive plena certeza: estava com amnésia! Mas como isso pode acontecer? Eu podia me aproveitar daquela situação, mas o amava demais para fazer tal ato.
- , você está com amnésia, deve ter sofrido algum tipo de traumatismo craniano. Precisamos forçar sua mente, você vai se lembrar de alguma coisa.
Dessa vez quem ficou perplexo foi ele.
- Amnésia?
- Sim. Tenta se lembrar da última coisa que te aconteceu antes de vir até aqui.
forçou a mente um pouco, até encher os olhos de lágrimas e eu perceber que ele havia lembrado de algo. Achei que aquele sonho estranho acabaria ali, mas me enganei. surtou! Deu um grito e sentou na cama. Eu sentei ao seu lado e perguntei:
- Lembrou-se de algo?
- Talvez... Imagens vêm e vão à minha cabeça.
- Conte-me que imagens são essas.
ficou calado durante um tempo quando finalmente disse:
- Uma garota... Ela tinha um taco de baseball na mão. Bateu em mim. Lembro que a pancada foi forte, mas consegui me afastar. E desmaiei. Quando acordei, a primeira porta que vi foi a de sua casa.
Então uma garota bateu na cabeça do e o fez ter uma amnésia, mas quem faria isso? E qual seria o motivo? Talvez fosse mais uma fã desesperada que não se conteve.
- Vou te ajudar a relembrar sua vida. – Eu disse com um tom acolhedor.
Fomos novamente às pesquisas, vimos fotos, lemos várias biografias e entrevistas e, aos poucos, foi se lembrando de quem era. Primeiro lembrou-se do seu nome, depois lembrou de como acontecera aquilo tudo e por fim lembrou que era integrante de uma famosa banda.
Quando era vivo, papai também fazia parte de uma banda. Então havia uns instrumentos na garagem. Peguei um contrabaixo e entreguei-o a que, sem perceber, começou a tocar. De repente ele fitou-me assustado, havia recordado de tudo.
- Hey, minha memória voltou! Preciso achar os meninos do Simple Plan! Temos um concerto, precisamos ensaiar! – Disse levantando-se depressa.
Mas como ainda não estava totalmente recuperado e a tempestade só piorara, pedi para passar a noite em casa comigo. Ele não tinha outra escolha, então disse que ficaria lá. Arrumei uma cama aconchegante para ele na sala, lhe dei roupas quentes que eram do papai e subi para meu quarto. Mas não consegui pregar os olhos. Fiquei sentada na cama durante um bom tempo, tentando entender se tudo aquilo era imaginação minha... Bem que mamãe falara dias antes que ouvir Simple Plan 24 horas estava afetando meu cérebro.
Desci as escadas em silêncio novamente para ver como estava, ao chegar à sala ele estava sentado na cama, como eu. Talvez pensasse no que estaria acontecendo também. Creio que não fosse fácil perder a memória. Quando me viu, sorriu. Aquele sorriso pelo qual eu era apaixonada estava sendo direcionado para mim. Sorri de volta.
- Não conseguiu dormir também? – Perguntei.
- Não mesmo, nem ao menos deitei. Sente-se aqui, vamos conversar.
-Sim, adoraria conversar com você. Pelo que vejo, passaremos a noite em claro.
- Quando me viu, se assustou?
- Quem não se assustaria ao ver seu ídolo todo molhado e com carinha de cachorro que caiu da mudança? – Rimos juntos e conversamos durante horas. Contei a que era fã dele há anos. Ele ria, e dizia que não havia casa melhor para entrar. Agradeceu-me várias vezes pela ajuda que eu lhe fornecera.
- Estou faminta, não comi nada durante horas. Mas sou péssima cozinheira.
- Não seja por isso! Há muitas coisas sobre mim que as revistas não publicam. Onde é a cozinha? – Disse bem humorado, levantando-se e puxando-me.
Fomos à cozinha e comemos brigadeiro de panela. O melhor já feito, segundo . Elogio confesso, exagerado. era gentil demais. E há cada vez que me olhava e sorria, podia sentir meu coração disparar.
Voltamos para a sala. Sentamos no colchão e continuamos conversando, como se cada segundo fosse o último que viveríamos. A tempestade só piorara. O que provocava raios cada vez mais fortes. Por um momento, achei que um raio havia caído no meu quintal. Fez um enorme barulho e as luzes se apagaram. Dei um grito e me abraçou.
- Calma, estou aqui e prometo que nada vai te fazer mal. – Disse, me apertando contra seu corpo. Ficamos assim, abraçados, durante vários minutos. Podia ouvir o coração dele batendo. Estava tão acelerado quanto o meu. Dormi assim. , ao perceber que eu estava pegando no sono, ficou passando a ponta dos dedos de leve em meu rosto. Dormi por poucos minutos, quando outro raio caiu e me assustou. Abri os olhos e ele estava deitado no sofá, havia me deixado no colchão e se deitado no velho sofá.
- Te vi dormir. E nunca vi sono mais lindo.
Seus olhos brilhavam, fiquei sem graça, e respondi com um sorriso, o mais sincero que já dei em toda a minha vida. Ficamos nos olhando profundamente em silêncio durante algum tempo, o qual não sei quanto foi, não conseguia pensar em nada, só em olhar para aquele rostinho de anjo. Ele deixou o sofá e sentou-se ao meu lado, encostando assim seu rosto no meu. Continuamos em silêncio total, nossos olhos não se desgrudavam durante nenhum segundo sequer.
- Estou sonhando? – Perguntei. E obtive como resposta uma aproximação maior ainda. Podia sentir o hálito dele se misturar com o meu. E senti que aquela era a maior distância que podia existir entre eu e ele. Precisava sentir aqueles lábios rosados se encontrarem com os meus. Mas não agi. Continuei quieta a encará-lo. se aproximou mais ainda. Dessa vez nossas bocas se tocaram. Senti-o explorar minha boca. E foi a melhor sensação que pude sentir. Abracei-o e beijei-o com todo meu amor. passava a mão por entre meus cabelos e mordia-me os lábios de leve. Acariciávamos um ao outro, com o cuidado que temos ao acariciar um recém nascido. Nosso beijo foi o mais perfeito que pudera haver. Foi quando mais um raio caiu e fez um barulho absurdo.
- Nunca beijei alguém assim. Juro. Tive a sensação de que esse foi meu primeiro beijo. – Sussurrou ao meu ouvido, me abraçando com carinho.
- E esse foi o primeiro beijo com amor que já dei em toda a minha vida. – Retruquei.
E dormimos assim, abraçados. Já era madrugada. Algumas poucas horas depois acordei com o sol batendo em meu rosto. Como por um milagre, a tempestade acabara e não deixara vestígio nenhum. Olhei para meu lado, e estava dormindo ainda. Beijei-o a face e levantei com cuidado, para não acorda-lo. Fui à padaria comprar nosso café da manhã. Quando voltei não o encontrei lá. Apenas um bilhete de agradecimento feito por ele.
- Não sei como agradecer e me desculpar por ontem. Mas te conhecer foi a melhor coisa que me poderia ter acontecido. Você tem meu carinho. Até breve.
Sentei no chão e chorei como uma criança chora. Solucei. Senti-me a mais burra das burras. Como pude acreditar que estaria se apaixonando por mim? Ele tem todas as garotas que quer, e fui mais uma delas. Como pude ser usada assim? Fiquei em posição fetal durante um tempo, chorando. Foi quando mamãe chegou. Recompus-me e fui cumprimentá-la. Ela, como a boa mãe que é, percebeu logo que eu havia chorado. Perguntou-me o motivo e me pressionou até eu contar. Contei em mínimos detalhes. Ela não disse nada, pelas expressões faciais, eu diria que ela não acreditou.
- Hum... Que coisa! Agora vou trocar de roupas, pois já tenho que trabalhar. Plantão hoje novamente, acredita?
- Mas mamãe, mal nos vimos agora.
- Desculpa filhinha.
E assim foi. Eu ficaria sozinha novamente. Resolvi convidar uma amiga para passar a noite comigo. Liguei e chamei. Ela, sem nem pensar, aceitou. Quando chegou, contei a ela toda a história, em seus mínimos detalhes também.
- Amiga, não creio!
- Creia, . Eu me sinto usada. Que droga.
, como eu a chamara, era uma amiga há tempos. A mais confiável que eu tinha. Amava-a muito e sempre contava meus segredos inconfessáveis a ela.
- E diz , ele é lindo pessoalmente tanto quanto em fotos? Acho que se o visse, o trancaria num armário de vidro e ficaria olhando o dia todo. – . incorporou a fã desesperada que dera a pancada na cabeça do ..
- Sim , . parece um bebê.
- E o beijo? – Dessa vez, ela incorporou uma criança olhando para um doce.
- O mais perfeito de todos. – Enchi meus olhos de lágrimas. Mais uma vez me senti usada.
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